Entrevista com Hairton Cabral

Em um bate papo exclusivo com nossa produtora, Bruna Bittencourt, o técnico da equipe feminina de voleibol do São Caetano e também um dos integrantes da comissão técnica feminina da seleção brasileira, Hairton Cabral, nos conta em detalhes, um pouco da história do voleibol brasileiro.

Não apenas um amante da história e do esporte, Hairton vive a história do vôlei na pele e acompanha todo o crescimento e popularização do esporte no país. Confira a entrevista de um dos nossos queridíssimos mestres do voleibol atual, que sempre ajudou e apoiou nossa equipe a dar vida a esta história.

Foto: Divulgação São Caetano

  • Como foi as olimpíadas de 1992 pro time feminino?

Em 1992, nas olimpíadas, fizemos a disputa do bronze contra a Rússia, mas perdemos. Na época o técnico era o Adson Lima e o Antônio Rizola, grandes mentores do voleibol.

Antônio Rizola já foi tricampeão juvenil. Tanto que essa geração que você está vendo hoje, foi ele quem a fez na década passada. Enfim, em 92 a gente já estava ali, batendo na trave, com uma equipe adulta e respeitada. Porque na década de 80 não era assim, o respeito adquirido pela seleção feminina veio no final de 80. Mas em 1994, ganhamos da Rússia na semifinal do Mundial, mas perdemos a final para Cuba.

  • O que aconteceu nessa ultima olimpíadas com a seleção feminina?

Desde 96, o feminino vem beliscando o pódio olímpico até que teve aquele jogo fatídico em 2004 que todo mundo comenta contra a Rússia, que não virava de jeito nenhum. Tava perdendo, dai, tava ganhando e depois perdeu de 3x2. Mas, 2006 vice campeão, 2008 campeão olímpico, 2010 vice campeão de novo e em 2012 bicampeão olímpico. E agora, infelizmente, por nada a gente deixou a medalha passar. Mas, igual no Mundial de 2014, quando disputamos a final e perdemos. Na verdade, ficamos em 3o lugar. Mas veja bem, o Brasil jogou 13 jogos, perdeu 1 que foi a semifinal e foi disputar o 3o lugar e ficou em 3o. O time campeão que foi EUA, perdeu 3 jogos e mesmo assim foi campeão. Aconteceu a mesma coisa agora nas olimpíadas. A China perdeu 3 jogos e foi campeão olímpico, o Brasil perdeu 1 jogo e ficou em 5o.

  • Qual a diferença dos outros esportes para com o Voleibol que fez com que ele se popularizasse mais do que os outros?

Então, em poucas linhas, ao contrario do que foi feito no basquete, por exemplo, tanto que eu larguei o basquete e vim pro vôlei por causa disso, que se manteve no eixo Rio-SP praticamente, o voleibol fez o contrario. Foram tomadas varias iniciativas e criaram os campeonatos menores que é chamado de CBS – Campeonato Brasileiro de Seleções. E aí, começaram a descobrir que o vôlei não era só RJ e SP. Que tinha gente jogando em vários lugares. Carlão, veio lá do Acre. Marcelo Negrão, de Recife. Cada um vinha de um canto. Dai, quando perceberam isso, pensaram: “Pera ai... Vamos começar a garimpar esse pessoal.” O Brasil pode ta ganhando todas, mas isso é uma geração e a gente precisa de peças de reposição. E esse foi o grande lance!

  • O tempo passa, os jogadores mudam, mas o vôlei brasileiro ainda se mantem entre os melhores do mundo. Como isso acontece?

O segredo num está na seleção adulta. O segredo tá lá na base. Então, é como o povo fala: existe o voleibol do Brasil e o voleibol no Brasil. Isso é verdade. O voleibol do Brasil é a seleção brasileira, que tem toda a estrutura e preparação. Já o voleibol no Brasil, são os nossos clubes, que ainda não estão tão bem preparados. Lembro até da entrevista do Bernardinho que falava “nossa, ninguém acreditava na minha seleção”, mas para pra pensar... Que seleção que consegue fazer isso? Passar 20 anos no topo, ali entre os melhores? Era coisa de gerações e tal. E o negocio é que o Brasil estruturou muito bem isso. Claro que ainda não é o ideal, mas enfim... Os campeonatos aconteciam e os técnicos da seleção de base iam nesses jogos observar os talentos. Mas não era só nas divisões especiais não. Eles iam lá na primeira e segunda divisão também. Porque de repente, tem uma menina lá no Amazonas que o time perde, mas pode ter uma jogadora lá que tem 1.90 de altura e sai mais 1 metro do chão que a gente pode trabalhar e ela vira um fenômeno. Isso é um exemplo, claro, mas é o que aconteceu. É feito uma rede de informações entre os técnicos, são relatórios e mais relatórios pra saber do treinamento daquela jogadora ou jogador. Então, nesses anos todos, tem muitos jogadores sendo recrutados e por isso troca as gerações e vai indo. Antes a gente tinha Mauricio. Dai entra a geração do Ricardinho, Giba, Serginho. Depois Lucão, Bruninho, Murilo, etc. Como é que os caras conseguem? Foi essa visão de base. Preparar bem a base, ganhar tudo. E é o que eu costumo dizer, “quem bate nunca lembra, mas quem apanha sempre lembra.” E você pode até ver numa reportagem que o Ricardinho deu esses tempos atrás onde ele disse: “Antigamente a gente ganhava o jogo no aquecimento.” Sabe como? Na moral! No aquecimento o time já se impunha. Mas olha, todo resultado que a gente tem, além do talento, é porque a gente treinou muito e o trabalho dos técnicos brasileiros são, na minha opinião, os melhores do mundo.

  • Na sua opinião, por que hoje a mídia tem interesse em transmitir os jogos de vôlei e antigamente não?

É tudo consequência. Tudo gira em torno do resultado da seleção principal. Acredito que o futebol só é o que é porque ganhamos títulos. Se não fosse campeão, se o Pelé não ganhasse títulos, se os jogadores não fossem “fora da curva”, a gente não seria o futebol que somos hoje. E acontece a mesma coisa com o vôlei. É tudo consequência. É a união das conquistas e resultados. É muito claro isso no voleibol. Então, Bruna, a gente percebe isso em qualquer modalidade. Quando a seleção principal traz resultado, o olhar muda. E quando você chega no patamar que o Brasil chegou, a gente tem que manter. E outra coisa, se não fosse rentável, eles não transmitiriam. Pra você ter uma ideia, na final da superliga de uns 2 anos atrás, não sei dizer em números, mas nós batemos um jogo de futebol do Flamengo que estava sendo transmitido na Globo.


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