Entrevistas com Paulo Marcio Nunes da Costa

Durante o bate papo exclusivo com a produtora e diretora do documentário "A Era do Peixinho", Paulo Marcio Nunes da Costa, ex técnico que se dedicou muitos anos como diretor de seleções da Confederação Brasileira de Voleibol, nos contou detalhes de como foi o processo de aprendizado com os japoneses e todo o seu olhar técnico perante as equipes e atletas atuais do vôlei brasileiro.

Entenda um pouco mais sobre o trabalho feito em torno do voleibol atual através de sua história.

Foto: Autor desconhecido

  • Atualmente, o número de jovens que ingressam no voleibol é menor que antes. Você acredita que isso pode ser uma luz amarela para os trabalhos feitos na base?

Com certeza! Mas, temos que dar continuidade ao trabalho. Por exemplo, um garoto do Piauí, ele ganha um mundial aqui e depois volta pra lá e vira um exemplo para os mais jovens. Mas, também não é só isso. O suporte escolar precisa ser trabalhado, e é o que falta. Na verdade, no vôlei o que nós fazemos é resolver um problema, mas não somos a consequência de um sistema. O ideal seria que o que fazemos tivesse repercussão, principalmente na escola, desde o aprendizado infantil. Seria mais fácil, econômico e natural. O desempenho poderia ser consequência de um trabalho feito nas escolas.

  • Durante a conversa com Antonio Rizola, ao ressaltar o sinal amarelo para o número de jovens que praticam esporte, ele afirmou que, infelizmente, na geração digital em que estamos hoje um jovem é mais habilidoso em apertar botões do que correr descalço, subir em uma árvore, entre outras brincadeiras que antigamente eram muito comuns. Você concorda com isso? Acredita que isso afeta o número de jovens qualificados dentro do voleibol?

Eu concordo com o Rizola. Mas, isso não é um problema só do vôlei. Já tem vários trabalhos, inclusive um livro chamado Focus, que saiu faz uns 3 anos. Nesse livro eles mostram um estudo de 20 anos atrás, onde estão preocupados sobre a internet, fazendo estudos para ver a evolução e com o fim da criatividade, falta de contato, não olhar no olho, isso é muito importante pro atleta. Hoje, eles chegam com muito menos potencial técnico do que antes, falta coordenação, às vezes até porque são muito altos e não trabalharam direito, a coordenação e técnica como a do voleibol. Eu vi um grupo que chegou lá no centro de meninas que não sabiam correr, os técnicos tinham que ensinar isso. E isso pra mim parecia absurdo. Hoje, tem que ensinar o básico, a coordenação, mas, o tipo de vida não estimulou isso e é um problema.

  • Por que o Carlos Arthur Nuzman investiu no aprendizado dos técnicos brasileiros com os japoneses?

O Nuzman é muito inteligente e observador! Foi uma oportunidade da época e teve até a iniciativa do próprio Japão, oferecendo um estágio lá. Meu primeiro trabalho foi fazer esse estágio quando entrei na CBV. Eu fiquei lá estudando sistema de base e adulto, universidades, equipes, empresas e até a administração da Confederação. A partir disso, foram mais pessoas, foram 6 jogadores, inclusive o Zé Roberto. Depois, o Matsudaira veio pro Brasil comigo, e depois veio o Imai. Ele ficou aqui, foi técnico da seleção nossa. Eles percorreram o Brasil todo em 75-76, e partir dessas visitas eles mudaram nossa metodologia. Nós éramos muito presos na metodologia europeia, inicialmente. usávamos muito a força. Quando eles vieram aqui, já eram campeões olímpicos de 72. Introduziram o treinamento deles, e partir daí a seleção adotou e mesclou esses dois. Inter-relacionamento técnico entre Japão e Brasil, que resultou no que somos hoje. Então, o Nuzman foi uma locomotiva no boom do vôlei na mídia, no profissionalismo, e a vinda deles foi o boom na transformação e na escola. Nós devemos bastante a eles.

  • Com o nível do voleibol mundial equilibrado, a cobrança e pressão são maiores para se manter no topo. Isso é algo ruim?

A cobrança hoje é maior e bem vinda! Ela é uma consequência da história, do que se conseguiu. Hoje, o voleibol é qualificado e observado o tempo todo. Simplesmente, uma equipe de alto nível. Então, você tem sempre que subir. E a gente sempre vê isso como uma coisa boa. Hoje em dia, tem muitos times equilibrados, que demonstram uma evolução muito grande. Em 2020, acredito que, o feminino vai estar mais equilibrado ainda. Isso é natural! O esporte está hiper profissionalizado. Você tem que se aperfeiçoar. Tem que ser eficiente sempre e não pode errar, porque tudo muda muito. Qualquer coisa você pode perder ponto e isso acaba exigindo um apuro muito maior pros atletas e para equipes. Afinal, você não tem uma equipe de voleibol boa sem um técnico bom.

  • Atualmente, está mais difícil encontrar atletas “fora da curva”, com qualidade técnica. Isso acontece porque o nível de exigência é cada vez maior, baseando-se nos atletas anteriores?

É difícil responder isso. Eu prefiro dizer que esses atletas que chegam com pouca técnica é porque a cultura mudou e não porque o nível aumentou. Hoje, o garoto não tem formação básica, ou se tem adquiriu com 14 anos. Mas, se ele é profissional, ele treina muito mais do que treinava antes. Então, em resumo, tem que ter talento e esforço.

Antigamente, as pessoas chegavam no clube já selecionadas. A base já estava feita. Era questão só de treinamento depois. Já hoje, o garoto chega seco, mas, treina muito mais. Antigamente, treinava 2 ou 3 vezes por semana só. Hoje é todo dia. São cerca de 6 horas por dia. Mas, se além de treinar tudo isso e tiver talento, você vira um gênio, tipo o Giba, Nalbert. Afinal, pelo volume de treinamento que se tem desde os 13 anos, vai acabar crescendo.

  • Na sua opinião, o que aconteceu com a seleção feminina nas Olimpíadas de 2016?

Foi uma questão… isso é bem delicado, é difícil falar porque não temos todos os dados. Eu acho que faltou ali um espírito de liderança. Não que não tenha líder lá. Mas, naquele jogo que perderam pra China, faltou aquele sentimento. Lá dentro de quadra, faltou tranquilidade, faltou segurança. Aquele pensamento de: “A campeã sou eu!” Acredito que foi mais uma questão interna do que de qualidade de jogo. Faltou naquele momento crucial a certeza de que elas são as melhores.

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